Liderança pública para a era da IA: princípios e capacidades para 2026

O que os aprendizados de 2025 indicam sobre como gestoras e gestores públicos podem usar a inteligência artificial com responsabilidade, equidade e foco no interesse público

A inteligência artificial passou a integrar, de forma mais estruturada, a agenda de governos em diferentes países. Em 2025, órgãos públicos e organizações multilaterais, como a UNESCO e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicaram guias e recomendações voltadas ao uso responsável da inteligência artificial em políticas públicas e serviços essenciais, com foco em governança, proteção de direitos e criação de valor público.

No Brasil, esse debate dialoga com marcos já existentes, como a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA), coordenada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), que estabelece princípios para o uso responsável de dados, inclusive em sistemas automatizados no setor público. Esses referenciais nacionais convergem com orientações internacionais ao reforçar que a adoção da IA deve servir ao interesse público e fortalecer a capacidade do Estado.

Nesse novo cenário, liderar na era da IA significa fortalecer a capacidade decisória do Estado, proteger o interesse público e garantir que a tecnologia contribua para políticas mais eficazes e justas. Os aprendizados acumulados em 2025 ajudam a desenhar quais princípios e capacidades precisam ganhar força a partir de 2026.

O que 2025 ensinou sobre IA no setor público

Guias oficiais publicados em 2024 e 2025 por órgãos como o U.S. Department of Education, a UNESCO e a OCDE convergem em pontos centrais. A IA pode apoiar governos em tarefas como análise de dados, planejamento, avaliação de políticas e melhoria de processos, desde que seu uso seja orientado por objetivos claros e acompanhado por supervisão humana. O foco está no apoio à tomada de decisão pública.

O guia Artificial Intelligence and the Future of Teaching and Learning, publicado pelo U.S. Department of Education em 2024, destaca que sistemas de IA devem ser usados para ampliar a capacidade de educadores e gestores, e não para substituí-los, reforçando a importância de transparência, equidade e responsabilidade institucional. Diretrizes da UNESCO e da OCDE reforçam a mesma direção ao apontar que o valor público da IA depende menos da tecnologia em si e mais da forma como ela é integrada às políticas, aos dados e às pessoas que operam o sistema.

No contexto brasileiro, documentos estratégicos e iniciativas de formação para gestores públicos, como as conduzidas pela Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), têm incorporado esses princípios ao discutir inovação, uso de dados e tecnologias digitais no setor público.

Princípios que orientam a liderança pública na era da IA

São três princípios centrais. O primeiro é o foco do interesse público. Decisões sobre IA devem partir de problemas reais e de prioridades de política pública claramente definidas. Esse entendimento está presente tanto em guias internacionais quanto na EBIA, que orienta o uso da IA para o desenvolvimento social e econômico do país.

O segundo princípio é a responsabilidade institucional. Guias internacionais e a legislação brasileira destacam a necessidade de clareza sobre quem decide, quem opera os sistemas, como os dados são usados e como os resultados são monitorados. A LGPD reforça esse ponto ao estabelecer deveres de transparência, segurança e prestação de contas no tratamento de dados pessoais.

O terceiro princípio é a equidade. Diretrizes publicadas em 2024 e 2025 por organismos como a UNESCO e a OCDE apontam que sistemas de inteligência artificial podem reproduzir ou até ampliar desigualdades existentes quando são treinados com dados enviesados ou aplicados sem critérios claros de monitoramento. Por isso, esses documentos recomendam que governos adotem intencionalidade no desenho, na implementação e na avaliação das ferramentas, para que a IA contribua para reduzir barreiras de acesso e ampliar a qualidade dos serviços públicos, especialmente para grupos historicamente menos atendidos.

Capacidades que gestores precisam desenvolver

Para aplicar esses princípios, algumas capacidades ganham centralidade a partir de 2026. A primeira é a leitura crítica de dados e sistemas. Gestoras e gestores públicos não precisam desenvolver algoritmos, mas precisam compreender limites, riscos e possibilidades das ferramentas utilizadas. Guias do governo britânico ressaltam a importância de líderes capazes de questionar resultados, identificar vieses e avaliar impactos antes de escalar soluções.

A segunda capacidade é integrar tecnologia à política pública. A IA gera valor quando está conectada a metas, orçamento, processos e rotinas de avaliação. Segundo análises recentes da OCDE, iniciativas isoladas de uso de IA tendem a perder efeito quando não estão conectadas ao planejamento institucional, ao orçamento e aos objetivos de médio e longo prazo das políticas públicas.

A terceira é a gestão de pessoas em contextos de mudança. A introdução da IA altera fluxos de trabalho e exige aprendizagem contínua. Guias internacionais e experiências no setor público brasileiro indicam que criar espaços seguros para experimentação, formação em serviço e colaboração entre áreas é parte essencial do papel da liderança pública.

Governança como base para escalar com qualidade

Os aprendizados de 2025 mostram que a adoção responsável de IA depende de governança clara, construída de forma institucional e sustentada ao longo do tempo. Isso envolve definição de casos de uso prioritários, regras para uso de dados, monitoramento contínuo e avaliação dos efeitos das ferramentas adotadas. Sem esses elementos, iniciativas tendem a ser pontuais e pouco sustentáveis.

No setor público, a governança também garante continuidade. Políticas orientadas por dados e tecnologia precisam sobreviver a mudanças de gestão. Guias internacionais e documentos brasileiros convergem ao indicar que processos institucionais bem definidos e capacidade instalada nas equipes são condições para que a IA contribua de forma consistente para a melhoria dos serviços públicos.

Liderar na era da IA

Em 2026, liderar na era da inteligência artificial será menos sobre acompanhar tendências e mais sobre coordenar pessoas, dados e decisões em ambientes complexos. A IA pode ampliar a capacidade do Estado, mas apenas quando usada com intenção, critérios claros e foco em resultados públicos. Os aprendizados de 2025 apontam um caminho consistente. Lideranças públicas que combinam visão de interesse público, responsabilidade institucional e abertura à inovação conseguem transformar tecnologia em apoio real às políticas.

Para a Fundação Lemann, apoiar o fortalecimento de lideranças públicas é parte central do esforço coletivo para que novas tecnologias sejam adotadas com responsabilidade, equidade e foco em resultados que contribuam para melhorar a vida das pessoas.

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