No dia 4 de novembro, a Fundação Lemann realizou, em sua sede em São Paulo, mais uma edição do FL Convida, reunindo especialistas, educadores e parceiros para discutir o papel da Inteligência Artificial (IA) e do letramento digital na Educação Básica.
Com o tema “Inteligência Artificial e Letramento Digital na Educação Básica”, o encontro destacou caminhos para o uso ético, intencional e equitativo das tecnologias na aprendizagem, reforçando a importância de políticas públicas e práticas pedagógicas que coloquem as pessoas no centro das transformações digitais.
Por que este tema importa
A adoção de inteligência artificial já é realidade no cotidiano escolar. Pesquisas apresentadas durante o evento mostram que 94% dos professores brasileiros conhecem a tecnologia e mais da metade a utiliza semanalmente, principalmente para planejar aulas e criar atividades.
Entre estudantes, o cenário é semelhante: 60% usam IA para pesquisas, mas apenas um em cada cinco demonstra habilidades intermediárias de literacia digital. Para Ana Luísa Prado, da MegaEdu, “os estudantes estão usando, mas isso não significa que saibam como usar. Eles não estão aprendendo a transferir esse uso para a aprendizagem real.”
Os dados reforçam a urgência de investir em formações práticas, infraestrutura adequada e curadoria de qualidade, para que a tecnologia reduza desigualdades em vez de ampliá-las.
Da evidência à prática: tutoria e avaliação com IA
Pesquisas da Universidade de Stanford também mostraram que modelos de tutoria de alto impacto aceleram a aprendizagem em leitura e matemática. “A IA pode atuar como copiloto do tutor”, explicou Lauren Ziegler, diretora do National Student Support Accelerator. “Quando o tutor é menos experiente, o apoio da IA aumenta a qualidade da intervenção.”
As apresentações conduzidas pelos especialistas de Stanford apontaram três caminhos complementares.
- Personalização com vínculo humano: a aprendizagem melhora quando há atenção individual e laços de confiança. IA e tutoria funcionam melhor juntas, como apoio ao trabalho docente.
- Literacia digital cívica: em um ambiente saturado de informação, é essencial aprender a avaliar fontes e reconhecer conteúdos confiáveis. Como resumiu Joel Breakstone, “vivemos num mundo onde a informação é abundante, não escassa. Ensinar a ignorar o que não é confiável é tão importante quanto ensinar a ler.”
- Foco no uso docente: professores que utilizam IA regularmente tendem a adotar ferramentas que os apoiam diretamente, como assistentes de planejamento. O resultado é ganho de tempo e melhoria na preparação das aulas, desde que haja curadoria e critérios pedagógicos claros.
No Brasil, essa agenda já avança. O assistente pedagógico via WhatsApp, desenvolvido pela Nova Escola, alcançou cerca de 80 mil professores e gerou mais de 300 mil planos de aula, com economia de até 60 minutos por preparação. A adoção foi maior em regiões com menor infraestrutura digital e entre docentes pretos e pardos, reforçando a importância de promover equidade racial e digital no uso das tecnologias educacionais.
Evidência que vira prática
As falas de Daniela Giuliano, da Nova Escola, e Ana Luísa Prado, da MegaEdu, convergiram em dois pontos centrais. O primeiro é formar enquanto se usa. É mais eficaz aprender na prática, com feedback rápido e materiais conectados ao currículo e ao contexto local. O segundo é garantir infraestrutura básica. Sem conectividade, dispositivos e interoperabilidade de dados, boas práticas permanecem isoladas e perdem escala.
A discussão reforçou a importância da intencionalidade. Em meio à profusão de produtos e promessas tecnológicas, redes e secretarias avançam mais quando definem casos de uso prioritários, critérios de qualidade e rotas de implementação que promovam equidade e segurança.
Governança e integração para escalar com equidade
O Brasil vive um momento decisivo. A digitalização ainda é desigual, mas já há base para integrar dados, alinhar políticas e fortalecer rotinas pedagógicas. Isso requer governança clara sobre o uso e o acesso a dados, bem como padrões mínimos de conectividade e dispositivos. Também depende de interoperabilidade entre plataformas e avaliações, para que professores recebam informações acionáveis e gestores possam acompanhar, com transparência, a aprendizagem e a equidade nas escolas.
A experiência internacional mostra que os maiores ganhos ocorrem quando IA e tutoria se conectam ao currículo, às avaliações e à formação docente. Para Guilherme Cintra, diretor de inovação e tecnologia da Fundação Lemann, “quanto mais tecnologia a gente tem no mundo, mais humanidade a gente precisa buscar.”
Um anúncio que reforça a ponte entre pesquisa e a política pública
O encontro terminou com o anúncio da tradução inédita do livro The Political Economy of Education, de Martin Carnoy, viabilizada em parceria entre a Fundação Lemann e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A obra, que analisa as relações entre educação, economia e políticas públicas, será disponibilizada gratuitamente em português à sociedade pelo Ipea em 2026. A publicação ocorre no marco da celebração dos 60 anos do Instituto e reforça o compromisso conjunto de ampliar o acesso a conhecimento estratégico para a formulação de políticas educacionais mais efetivas.
Flávia Schmidt, diretora de conhecimento, dados e pesquisa da Fundação Lemann, ressaltou que, com a publicação da obra em Português, cria-se uma oportunidade para amplificar, junto à sociedade brasileira, o impacto da pesquisa produzida no Lemann Center for Educational Innovation and Entrepreneurship in Brazil, da Escola de Educação de Stanford, que há quinze anos vem atuando na formação de centenas de lideranças educacionais brasileiras.
E agora, o que fazer?
Os próximos avanços nesta agenda exigem a articulação entre conhecimento, prática e política pública.
No curto prazo, investir em formações em serviço com feedback rápido, curadoria de conteúdo confiável, pilotos de tutoria apoiada por IA e comunicação clara com famílias e estudantes sobre o uso e os limites das ferramentas é fundamental.
No médio prazo, redes podem integrar avaliação, planejamento e materiais em sistemas interoperáveis, com governança robusta.
No longo prazo, é essencial fortalecer parcerias entre governos, universidades e organizações da sociedade civil para testar, medir e escalar o que funciona.
Para concluir
O encontro reforçou caminhos possíveis e parcerias estratégicas para que as evidências possam se tornar prática no dia a dia das redes públicas. O desafio agora é transformar essas pistas em rotinas, para que decisões bem informadas cheguem onde precisam e qualifiquem a experiência de aprendizagem de milhões de crianças e jovens no Brasil.
