As escolas ocupam um papel central no desenvolvimento integral de crianças e adolescentes. Mais do que espaços de aprendizagem acadêmica, são ambientes de convivência, construção de vínculos e ampliação de repertórios sociais e emocionais. Quando o bem-estar está presente, estudantes se engajam mais, permanecem na escola e aprendem melhor.
Durante muito tempo, a saúde mental e o bem-estar foram tratados como temas secundários nas políticas educacionais. Nos últimos anos, o avanço das evidências científicas tem reforçado que aprendizagem, bem-estar físico e saúde mental caminham juntos. Ambientes seguros, relações de cuidado e práticas pedagógicas intencionais estão diretamente associados ao engajamento escolar e ao enfrentamento da evasão, um dos grandes desafios da educação pública brasileira.
O que os dados revelam sobre o bem-estar nas escolas
Estudos recentes ajudam a dimensionar esse desafio. Em 2025, uma pesquisa conduzida pelo Instituto Educbank, em parceria com o Great Place to Study, mostrou que 57% dos estudantes não percebem a escola ou seus professores como atentos ao seu bem-estar. Apenas cerca de 20% afirmaram se sentir acolhidos no ambiente escolar.
A violência e o bullying seguem como fatores centrais nesse cenário. Dados do boletim técnico Escola que Protege: dados sobre bullying e cyberbullying, publicado pelo Ministério da Educação em 2025, indicam que apenas 27% das escolas afirmaram não ter registrado casos de bullying. Situações de violência e discriminação racial, que afetam de forma desproporcional estudantes negros, comprometem o bem-estar, ampliam o estresse e fragilizam a permanência escolar.
Outro fator que passou a influenciar diretamente o clima escolar é o uso de celulares. A regulamentação nacional, em vigor desde 2024, ao restringir o uso dos aparelhos em sala de aula a fins pedagógicos, contribuiu para melhorias na atenção, na participação dos estudantes e na redução de conflitos. A medida também estimulou debates sobre cidadania digital, equilíbrio no uso de telas e práticas pedagógicas mais intencionais.
Bem-estar no currículo: avanços e limites
Nos últimos anos, políticas públicas têm incorporado o bem-estar, a saúde mental e o desenvolvimento socioemocional aos currículos escolares. Esse movimento representa um avanço importante. No entanto, a simples inclusão do tema nos documentos oficiais não garante mudanças sustentáveis, especialmente em redes públicas marcadas por desigualdades estruturais.
Sem investimento consistente na formação continuada de educadores e em condições institucionais que apoiem o trabalho pedagógico, iniciativas voltadas ao bem-estar tendem a permanecer no plano normativo. Evidências mostram que escolas que fortalecem relações colaborativas, gestão participativa e práticas de cuidado apresentam melhores resultados de aprendizagem e maior engajamento da comunidade escolar.
Caminhos para fortalecer o bem-estar de estudantes e educadores
Avançar exige compreender o bem-estar como uma construção coletiva, incluindo ações voltadas para o suporte de professores. Isso envolve fortalecer políticas públicas integradas, investir na formação continuada, ampliar equipes multiprofissionais, criar espaços reais de escuta nas escolas e promover práticas pedagógicas que enfrentem as causas do bullying e da evasão escolar, com atenção especial à promoção da equidade racial.
A aprovação da Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares, em 2024, representa um marco importante ao reconhecer a saúde mental como parte do direito à educação. O desafio agora está na implementação efetiva dessa política nos estados e municípios, transformando marcos legais em ações concretas.
Nesse contexto, redes públicas de ensino, em articulação com organizações da sociedade civil, têm demonstrado avanços relevantes. A Coalizão para Educação Integral para Adolescentes, por exemplo, reúne governos e organizações em torno da promoção de ambientes escolares mais seguros, do fortalecimento da educação integral e do enfrentamento das desigualdades raciais, com apoio da Fundação Lemann.
Fortalecer o bem-estar nas escolas é tratá-lo como um eixo estruturante das políticas educacionais, integrado à formação docente, à gestão escolar e à promoção da equidade. Esse é um esforço coletivo, que exige colaboração entre poder público, organizações da sociedade civil e lideranças educacionais comprometidas com uma escola que acolha, engaje e garanta o desenvolvimento integral de todas as pessoas.
