Liderança feminina no Brasil: o que os dados revelam

Formação qualificada, dados públicos e redes de apoio são fatores centrais para ampliar a presença de mulheres em posições estratégicas

O Dia Internacional da Mulher é uma oportunidade para observar, com base em dados, como a participação feminina tem evoluído nos espaços de decisão no Brasil. Os números indicam avanços em diferentes setores. Ao mesmo tempo, revelam desigualdades persistentes, especialmente quando se considera o recorte racial e as barreiras históricas de acesso a oportunidades de formação e progressão na carreira.

Segundo o estudo “Desigualdade de gênero em cargos de liderança no Executivo Federal”, publicado pelo Movimento Pessoas à Frente em 2024, mulheres ocupam 45% dos cargos de liderança na burocracia federal. No entanto, quando se observa o recorte racial, a presença de mulheres negras e pardas cai para 15% nas posições de maior hierarquia. O dado evidencia que o acesso à liderança segue desigual e que avanços gerais podem ocultar desafios estruturais que impactam, de forma desproporcional, mulheres negras.

O cenário se repete em outros contextos. Segundo o relatório Perfil Social, Racial e de Gênero das 1.100 Maiores Empresas do Brasil (Instituto Ethos, 2024), mulheres ocupam 18,6% das cadeiras em conselhos de administração. No terceiro setor, o Censo GIFE 2022-2023 aponta que a paridade em conselhos deliberativos ainda não foi alcançada.

Esses dados contribuem para um debate que vai além da representação. Uma revisão de literatura produzida por Michael França e Fillipi Nascimento, em parceria com o Núcleo de Estudos Raciais do Insper (NERI), reuniu evidências de que uma participação mais equitativa de mulheres em posições de liderança no setor público pode estar associada ao aumento de investimentos em saúde e educação, à redução da corrupção em instâncias municipais e a aspirações educacionais e profissionais mais elevadas entre mulheres e meninas. O próprio documento ressalta que essas evidências devem ser interpretadas com cautela e não podem ser generalizadas. Ainda assim, o conjunto dos achados sugere efeitos positivos da diversidade em cargos de autoridade e liderança.

Ampliar a presença de mulheres, especialmente mulheres negras, em posições estratégicas é, portanto, um caminho que pode contribuir para políticas públicas mais abrangentes e organizações com maior capacidade de resposta à diversidade da população brasileira.

Formação e redes como caminhos estruturantes

A ampliação da liderança feminina exige investimento em formação de qualidade, critérios claros de acesso e ambientes institucionais que favoreçam permanência e progressão.

A Rede de Líderes apoiada pela Fundação Lemann reúne mais de 700 pessoas comprometidas com a transformação social em diferentes setores, da educação ao setor público, do terceiro setor à academia. Segundo o Relatório 2024 da Fundação Lemann, 50% da Rede é composta por mulheres e 30% por pessoas negras e indígenas. O compromisso do ecossistema até 2031 é garantir a presença de 5 mil lideranças em posições estratégicas, com 50% de mulheres e 40% de pessoas negras, reforçando a equidade racial como dimensão central desse avanço.

Iniciativas conectadas a esse ecossistema atuam diretamente no fortalecimento de trajetórias femininas no setor público. O Programa de Lideranças Negras na Gestão, realizado em parceria com a Fundação João Pinheiro, e a Comunidade Legisla, do Legisla Brasil, são outros exemplos de como esse trabalho se organiza de forma colaborativa. Em 2024, a Comunidade Legisla reunia 355 integrantes em 22 estados, sendo 60% mulheres.

Mais do que metas numéricas, o foco dessas iniciativas está na qualificação técnica, no fortalecimento de redes e na criação de condições para que lideranças possam atuar com consistência e legitimidade em seus territórios e setores.

Um processo em construção

O fortalecimento da liderança feminina no Brasil avança, mas ainda exige políticas consistentes, transparência na divulgação de dados e acompanhamento contínuo dos resultados. Formação, critérios claros de seleção, ambientes institucionais que favoreçam a permanência e redes de apoio são elementos que, combinados, criam condições para trajetórias mais sólidas.A construção de um Brasil mais justo e desenvolvido passa pelo reconhecimento e pelo aproveitamento pleno do talento de todas as pessoas, com equidade racial como condição para que cada uma possa desenvolver seu potencial.

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