O Censo Escolar 2025 traz uma boa notícia para a educação brasileira: o país segue avançando na expansão das matrículas em tempo integral. Hoje, 25,8% dos estudantes da educação básica estão nessa modalidade, superando os 22,9% registrados no último levantamento e cumprindo a meta estabelecida pelo Plano Nacional de Educação.
O crescimento é resultado de um esforço coordenado entre União, estados e municípios e indica que a política vem ganhando escala. Nos Anos Finais do Ensino Fundamental, etapa em que os desafios de permanência e aprendizagem se tornam mais intensos, o avanço também foi registrado: o percentual de matrículas em tempo integral passou de 20,9% em 2024 para 23,7% em 2025.
Esse dado é especialmente relevante porque a adolescência representa uma fase decisiva da trajetória escolar. Como destaca Daniela Caldeirinha, vice-presidente de Educação da Fundação Lemann, “mais tempo na escola, com currículo e práticas voltadas às adolescências, é a principal alavanca para melhorar a aprendizagem nos Anos Finais do Ensino Fundamental. Trata-se da última grande janela de desenvolvimento cognitivo”.
Segundo o Saeb de 2023, apenas 36% dos estudantes das escolas públicas nos Anos Finais apresentam aprendizagem adequada em Língua Portuguesa. Em Matemática, o percentual é de 16%. Nesse contexto, ampliar o tempo de permanência na escola fortalece vínculos, amplia repertórios culturais e cria melhores condições para recompor e consolidar aprendizagens, especialmente quando a política é implementada com qualidade e intencionalidade.
Declaração racial avança e fortalece a tomada de decisão
Outro avanço importante do Censo Escolar 2025 está na qualificação das informações. O percentual de estudantes com declaração de raça/cor registrada passou de 39,7% em 2007 para 86,4% em 2025, um passo relevante para o aprimoramento das políticas públicas.
Com dados mais completos, gestores passam a ter melhores condições de identificar desigualdades e direcionar recursos com maior precisão. Ao mesmo tempo, os indicadores mostram que as disparidades raciais ainda marcam as trajetórias escolares e exigem atenção prioritária.
Nos Anos Finais do Ensino Fundamental, a distorção idade-série atinge 9,2% dos estudantes brancos e 17,7% dos estudantes negros. Em Matemática, ao final do 9º ano, 23% dos estudantes brancos apresentam aprendizagem adequada, frente a 10% dos estudantes pretos, segundo o Saeb 2023.
A ampliação da declaração racial fortalece a capacidade de monitoramento e permite que políticas como a expansão do tempo integral sejam orientadas com foco na equidade racial e territorial, garantindo que o avanço da política alcance os estudantes que mais precisam.
Expansão com direcionamento: a chave para ampliar resultados
A ampliação do tempo integral é uma ferramenta potente para reduzir desigualdades e melhorar resultados. Para que esse potencial se concretize, a expansão precisa estar acompanhada de planejamento, formação de professores, acompanhamento da permanência e uso consistente de evidências.
A própria ampliação das matrículas deve incorporar intencionalidade no enfrentamento das desigualdades raciais, garantindo maior acesso aos estudantes que mais dependem da escola como espaço de proteção e oportunidade.
Experiências acompanhadas pela Fundação Lemann em parceria com redes estaduais e municipais mostram que a implementação bem-sucedida da educação integral depende de planejamento de longo prazo, formação de professores, uso consistente de evidências e acompanhamento contínuo da permanência e aprendizagem dos estudantes. Redes que adotam essas estratégias observam maior engajamento e sentimento de pertencimento dos alunos.
O Brasil já demonstrou que coordenação federativa e políticas baseadas em evidências geram avanços, como indicam os resultados recentes na alfabetização e o crescimento consistente do próprio tempo integral.
O Censo Escolar 2025 aponta que o país está consolidando bases importantes: mais tempo na escola, informações mais qualificadas e maior capacidade de direcionar políticas públicas. Fortalecer esse movimento, com foco em equidade racial e qualidade da aprendizagem, é o caminho para que os Anos Finais do Ensino Fundamental se tornem, cada vez mais, uma etapa de desenvolvimento integral, pertencimento e oportunidades.
Celebrar os avanços é reconhecer o caminho percorrido. Com planejamento, coordenação e intencionalidade, é possível ampliar ainda mais os resultados e garantir que mais estudantes aprendam, permaneçam e desenvolvam seu pleno potencial.
