Nos últimos anos, debates sobre liberdade de expressão, diversidade e convivência democrática ganharam espaço dentro e fora das universidades. O que acontece nesses ambientes de formação reflete as transformações da sociedade. Mas como criar contextos para debates mais saudáveis, que valorizem a escuta, o respeito às diferentes perspectivas e a equidade racial?
Foi para aprofundar essa questão que o Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI) da FGV Direito SP, com apoio da Fundação Lemann, realizou a pesquisa “Abertura ao Diálogo em Universidades de Referência: contextualização, desafios e boas práticas”. O estudo reuniu uma análise histórica, revisão de evidências acadêmicas e um guia prático de estratégias pedagógicas e institucionais.
A confiança institucional e a polarização
O estudo se debruçou na realidade das universidades americanas por se tratar de um terreno que tem estado em disputa há bastante tempo, e onde práticas pedagógicas e institucionais já vêm sendo implementadas para tentar resolver a questão. O objetivo do estudo é contribuir com as estratégias da Fundação Lemann e de seu ecossistema para promover a diversidade e a abertura ao diálogo, em especial em comunidades de brasileiros em universidades de excelência.
A revisão de bibliografia realizada pela da FGV mostra que a confiança nas universidades despencou de 57% em 2015 para apenas 36% em 2023. Além disso, estudos mapeados também indicam o efeito negativo da polarização política na saúde física e psicológica dos estudantes: 45% dos estudantes têm receio de expressar suas opiniões em sala de aula devido ao medo de “cancelamento”.
A pesquisa também identificou que grupos marginalizados enfrentam riscos ainda maiores: estudantes não-brancos apresentam maior probabilidade de desenvolver quadros depressivos e avaliam seu bem-estar de forma menos positiva comparado aos estudantes brancos. Mulheres universitárias têm 10 pontos percentuais menos probabilidade de sentir que pertencem à sua instituição.
Estratégias para melhorar o diálogo nas universidades
A pesquisa sistematizou práticas pedagógicas e institucionais eficazes no ambiente universitário, entre elas:
Metodologia H.E.A.R. (Hesitação, Enfatizando Acordo, Reconhecimento, Reformulação Positiva): Desenvolvida pela Harvard Kennedy School, esta estratégia permite expressar discordância sem prejudicar relacionamentos, mantendo a comunicação respeitosa.
Técnica L.A.R.A. (Listen, Affirm, Respond, Add Information): Criada pelo Stanford SPARQ, oferece um roteiro estruturado para conversas difíceis, promovendo escuta ativa e construção de significados compartilhados.
Abordagem P.A.L.S. (Pausar, Reconhecer/Perguntar, Ouvir, Falar Sua Verdade): Desenvolvida pela University of Michigan, permite interromper preconceitos de forma construtiva durante conversas.
Impacto transformador da educação superior
O Brasil enfrenta desafios históricos para garantir educação de qualidade com equidade. Se, na educação básica, seguimos avançando em colaboração com governos e organizações parceiras para que todas as crianças aprendam na idade certa, no ensino superior precisamos garantir que a equidade e o diálogo também sejam fortalecidos.
A parceria identificou cinco fatores cruciais para um ambiente universitário saudável: coesão social, políticas DEI (diversidade, equidade e inclusão) efetivas, discussões políticas de alta qualidade, agência estudantil e engajamento político ativo. Universidades que implementam essas práticas registram maior bem-estar estudantil e menor polarização.
O compartilhamento de experiências pessoais também pode contribuir substancialmente para aumentar o bem-estar e equidade no ambiente universitário. Práticas poéticas e narrativas pessoais criam espaços seguros de fortalecimento para minorias, promovendo pertencimento e conscientização.
Os resultados oferecem não apenas um diagnóstico dos desafios contemporâneos, mas um roteiro prático para universidades que buscam transformar tensões em oportunidades de aprendizagem. Quando instituições de excelência unem forças, podem gerar impacto duradouro na construção de uma sociedade mais democrática e inclusiva.
